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Depoimentos/Entrevistas

Joal Teitelbaum
Presidente do CRIAS

VII Congresso Internacional das Rotas de Integração da América do Sul
Integração sul-americana: momento de acelerar
Entrevista sedida à Revista ANEOR, setembro de 2009.

Porto Alegre sediará nos dias 21 e 22 de outubro o VII Congresso Internacional das Rotas de Integração da América do Sul. Trata-se do único evento que discute a integração do continente reunindo o setor privado, governos e entidades de fomento. O evento é promovido pelo Comitê das Rotas de Integração da América do Sul (CRIAS), entidade sediada na capital gaúcha e presidida pelo empresário Joal Teitelbaum . Criado em 1996 para discutir alternativas para a integração física da região, o CRIAS deverá tratar em seu sétimo congresso das políticas públicas em diferentes setores indispensáveis para viabilizar a integração. Na entrevista a seguir, Teitelbaum fala sobre o CRIAS e sobre os objetivos do evento, que será realizado em Porto Alegre.


BRASIL VIAS - Qual a principal pauta do Vll Congresso Internacional das Rotas de Integração da América do Sul?
Joal Teitelbaum – Esta edição do Congresso terá um formato diferenciado de desenvolvimento. Ao invés de centrar as discussões somente no tema da integração física do continente, serão abordadas as políticas públicas dos setores de economia, social, ambiental, educação e cultura inerentes à formação de uma comunidade de nações. Isso porque já há um consenso quanto às infraestruturas físicas necessárias de comunicação e energia para a integração sul-americana. Queremos avançar, debatendo políticas que permitam o desenvolvimento harmônico da região, uma vez implementadas estas melhorias físicas, nas quais o Comitê tem se debruçado ao longo de seus treze anos de existência. Precisamos de ações concretas, que insiram de forma definitiva o setor privado/sociedade civil em uma agenda abrangente aos processos vinculados com a integração física, energética, de comunicações, cultural, social, ambiental, educação e econômica da América do Sul.
O VII Congresso Internacional das Rotas de Integração da América do Sul buscará a estruturação das ações participativas do setor privado  em convergência com as Políticas Públicas nestes setores, pois já é consenso entre os atores do processo que a sustentabilidade somente ocorrerá com a elaboração de planejamento estratégico e de agenda permanente e pró-ativa.


BRASIL VIAS - Como foi criado o Comitê das Rotas de Integração da América do Sul (CRIAS)?
Joal Teitelbaum - O CRIAS é constituído pelo setor privado e por associações, federações, confederações, conselhos, câmaras e instituições nacionais, bi-nacionais e continentais envolvidas com a questão da integração. Reúne representantes dos 12 países d a América do Sul, de organismos governamentais, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BlD), da Corporação Andina de Fomento (CAF), do Fundo para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata), do Conselho Empresarial da América Latina (CEAL), da Confederação Nacional da Indústria, de Federações Estaduais, da Associação Nacional de Empresas Rodoviárias (ANEOR), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), d a Academia, da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), entre outras instituições e organismos públicos e privados. Seu objetivo é colaborar para tornar viável a realização de uma infraestrutura viária, de comunicações e energética para a América o Sul, através do desenvolvimento harmônico, contemplando aspectos sociais, culturais, ambientais e econômicos dessa região. O Comitê foi instituído em 1996, por iniciativa da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Chile/RS, quando o então presidente do Chile, Eduardo Frei Ruiz-Tagle, visitou o Brasil, inicialmente com o objetivo de estudar alternativas para a interligação bioceânica (Atlântico - Pacífico). O Rio Grande do Sul, por sua posição estratégica, foi escolhido para ser a sede desta entidade, que tomou tal dimensão que, em 1998 teve sua abrangência estendida ao Mercosul e aos seus dois associados. Em 1 999, passou a se chamar Rotas de Integração do Cone Sul. A partir de 2000, passou a abranger os 12 países do continente e foi adotada a sua denominação atual: Comitê das Rotas de Integração da América do Sul. O ano 2000 foi emblemático para este processo, pois, por decisão dos presidentes de todos os países do continente, que resultou na criação da IIRSA, cujos trabalhos conduziram a definição de 10 Eixos de integração sul-americana.

 
BRASIL VIAS - Qual a situação destes eixos de integração? Houve avanços práticos no que se refere a sua implementação?
Joal Teitelbaum - A situação na América do Sul evolui nos últimos anos. Um exemplo é o Eixo Mercosul-Chile, que está 80% concluído em relação à situação de 1993. No Brasil as BRs 290 e 101, com exceção do trecho Palhoça e Torres e de alguns melhoramentos na BR-290 entre Porto Alegre e Uruguaiana estão praticamente prontas. A argentina está trabalhando na Rota 14 e, juntamente com o Chile, trata das questões de fronteira. Também temos avançado no que se refere aos nossos portos, que têm recebido melhorias, assim como o tráfego aéreo, que também tem avançado. É claro que temos gargalos, como na fronteira Brasil-Argentina, nas cidades de Uruguaiana e Passo de Los Libres. Neste caso a falta de um laboratório completo de testes obriga que as amostras de produtos oriundos do Chile sejam enviadas para Porto Alegre, enquanto os caminhões aguardam em Uruguaiana. Mas é inegável que houve avanços. Entendemos que é o momento de discutirmos as políticas públicas nas áreas econômica, social, cultural, educacional e ambiental, que vão alavancar, dar mais velocidade à integração na América do Sul.


BRASIL VIAS - Qual a estrutura atual do CRIAS?
Joal Teitelbaum - Operacionalmente, o CRIAS é uma ação resultante de trabalho totalmente voluntário e organiza suas iniciativas a partir de sete Modais, que são grupamentos técnicos para onde convergem os estudos e projetos dos setores aeroviário, ferroviário, comunicações, energético, hidroviário/portuário, rodoviário e de logística. Os  modais são apenas uma parte da estrutura organizacional do CRIAS. Outro elemento desta estrutura é o Congresso Internacional que se reúne bianualmente para traçar as diretrizes para o período seguinte. O Conselho Temático é formado por representantes convidados dos 12 países do continente, de organismos técnicos de Governo, da CAF, do BID, do Fonplata, do BNDES e do setor privado e reúne-se sempre que necessário no período entre os Congressos para traçar a política temática do Comitê. O Plenário é constituído por representantes da sociedade civil, inclusive os integrantes do Conselho Temático. Suas reuniões têm como objetivo apreciar os relatórios da Presidência e dos Modais e apresentar sugestões. Completando o pentagrama do comitê, temos a Presidência e Secretaria administrativa, que desenvolvem as ações pertinentes e dão continuidade aos trabalhos e ações do comitê.

BRASIL VIAS - Para o CRIAS, qual a formatação institucional que viabilizará a integração da América do Sul?
Joal Teitelbaum - Na visão do CRIAS, a efetivação de um esforço para a integração continental que gere resultados deve partir de um modelo sobre o qual temos trabalhado nos últimos dois anos. Já temos um instrumento técnico que é a IIRSA, que em nove anos de atuação definiu os dez eixos de integração e os projetos prioritários. A IIRSA conta com o apoio de entidades de fomento, como BID, CAF, Fonplata e o BNDES, que embora não seja integrante do grupo, também participa de forma indireta. Também temos um braço político em fase de consolidação em suas estruturas que é a União das Nações da América do Sul (UNASUL). Antes, tínhamos no continente o Mercosul e a Comunidade Andina de Nações, que não se falavam em forma institucionalizada. Porém, a base de qualquer processo de integração é a sociedade civil, que abrange a iniciativa privada,onde o CRIAS está inserido. Estamos trabalhando para interligar a sociedade civil ao braço técnico, a IIRSA, pois é a sociedade civil que, sabendo das oportunidades, vai alavancar os pólos educacionais, culturais e o desenvolvimento social e econômico. Esta relação entre IIRSA e sociedade civil é fundamental para que se construa a integração sustentável.
Este sistema certamente nos levará a consolidar um modelo semelhante à União Europeia. Alguns dirão que a América do Sul não é a Europa, respeitadas nossas assimetrias,  que são muito acentuadas. Efetivamente não somos a União Europeia, mas, mesmo lá, antes de se constituir esta União as diferenças entre países eram terrivelmente acentuadas.


BRASIL VIAS - Quem participa do VII Congresso Internacional das Rotas de Integração da América do Sul?
Joal Teitelbaum - Do setor público, já temos confirmada a participação de representantes de oito governos e organismos empresariais sul-americanos (Bolívia, Colômbia, Equador, Chile, Guiana, Paraguai, Peru e Uruguai), aguardando-se para breve a confirmação de outros dois, além de representantes do governo federal brasileiro, dos Ministérios das Relações Exteriores, dos Transportes e do Planejamento. Também estarão representadas secretarias estaduais ligadas à questão do desenvolvimento, e a prefeituras como a de Porto Alegre que hoje se constitui em um modelo internacional de gestão pública. Entre os organismos de fomento, participam o BID, a CAF, o BNDES e o Fonplata, e no setor privado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), Confederação Nacional do Transporte (C NT), FIERGS, Fecomércio, Federasul, Ceal, Associação Nacional das Empresas de Obras Rodoviárias (Aneor), União Panamericana de Associações de Engenheiros (Upadi) e representações da Academia, dos poderes Legislativo e Judiciário.
Na nossa visão de Futuro, da mesma forma que em 1996 deram-se os primeiros passos para reunir os setores público, privado, terceiro setor e entidades de fomento para construir o mapa estratégico da integração da infraestrutura e que se consolida a partir do ano 2000, estaremos neste ano de 2009 neste VII Congresso desenhando os processos nos campos das políticas públicas na economia, no social, no ambiental, na educação e na cultura para, com a infraestrutura física, de energia e de comunicações, contribuir na ação de construir a integração sul-americana.

Entrevista sedida à Revista ANEOR, setembro de 2009.

 

Joal Teitelbaum

Carlos Amorin
Embaixador do Uruguai

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos 5 anos?
Acho que temos que reconhecer que temos problemas. Não temos cumprido metas que nos propomos anteriormente. No caso, por exemplo, do Mercosul, as metas estabelecidas em 1991 não foram cumpridas. Mas temos que seguir trabalhando, seguir construindo a partir do que temos, ao invés de descartar o que avançamos em 20 anos. Na América Latina costumamos agir assim. Trabalhamos, trabalhamos e se não deu certo, partimos para outro caminho. Acho que não deve ser assim. Devemos trabalhar a partir de uma base, com objetivos de curto prazo, mas devemos seguir construindo com a base do que já temos.

- Onde o senhor considera que está falhando este processo de integração?
Não chegamos, no caso do Mercosul, a estabelecer uma união aduaneira que funcionasse concretamente. Temos alguns gargalos políticos que não conseguimos superar e as negociações sobre os mesmos temas continuam por cinco a dez anos e não conseguimos superar este assunto. O ideal seria procurarmos outro caminho para atingir o mesmo objetivo ou deixá-lo por enquanto e nos concentrarmos em outras ações.
Depois há um déficit institucional, pois não há instituições que dêem impulso ao processo de integração. É claro que temos um organismo como o CRIAS, que trata principalmente da integração física, que é vital. E aí temos coisas concretas, pois o CRIAS foi fundamental inclusive na criação da IIRSA, que cuida dos projetos desta área.

- Na sua avaliação, a integração física e a integração das políticas públicas estão avançando de forma harmônica no continente sul-americano nos últimos anos?
Também podemos avançar mais neste aspecto. As duas têm que avançar paralelamente. Uma é vital para a existência da outra. Não há comércio se não há vias físicas, se não há comunicações, se não há logística. Creio que uma leva a outra.

- Especificamente quanto ao Uruguai, que abriga organismos como a Aladi e a própria Secretaria Geral do Mercosul: isso leva responsabilidade ao Uruguai no processo de integração?
O Uruguai sempre tentou assumir um papel de promotor da integração. Sempre tentamos trazer para Montevidéu outros organismos como o Parlasul. Mas não queremos só sediar estas instituições, mas também assumir o papel de catalisador dos processos de integração.

 

Carlos Amorin

Moira Paz Etenssoro
Representante da Corporação Andina de Fomento

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos 5 anos?
Efetivamente temos visto um avanço importante, que parte da vontade política dos presidentes dos países da região. A partir daí estão tentando, cada vez mais, formar um bloco político, econômico e social da região. Isso faz com que se dê cada vez mais prioridade a integração da região.
Isso vem apresentando o Brasil como um país que, mais do que ocupar um importante espaço físico ocupa um espaço importante na economia mundial, que gera cada vez mais possibilidade de integração energética, ferroviária, hidroviária e, sobretudo, integração cultural dos países da América Latina

- Quais processos poderão ser implementados para acelerar a integração física, econômica, social, ambiental, educacional e cultural da América do Sul?
A partir de dez anos atrás, diferentes fatores tem sido incorporados nas decisões políticas, a sociedade civil tem participado das decisões quando se definem os traços de novos caminhos, estradas novas, de ações novas. Os povos indígenas têm sido incorporados. E acredito que a iniciativa privada deve assumir este papel. É preciso que se desenvolvam as parcerias público privadas. Isto é uma prioridade porque leva a uma unificação de esforços em termos de grandes investimentos. Isso também tem a ver com uma melhora na competitividade. Porque no final, o desenvolvimento vai se medindo em termos de empregos, de competitividade, produzindo mais e com um mercado interno cada vez maior. Assim desenvolvemos a região e nos convertemos em global players. O que o Brasil tem conseguido hoje, queremos que também se estenda para todos os paises da América Latina.

- Na sua avaliação, a integração física e a integração das políticas públicas estão avançando de forma harmônica no continente sul-americano nos últimos anos?
Tem ainda muito trabalho para fazer. Hoje há uma evolução nos termos do enfoque desta integração. Todos os países falam da integração no nível de fronteiras. Temos que trabalhar nestas áreas de fronteiras por uma questão de segurança. Tem realidades frontais como na fronteira da Bolívia onde a população usa o Real e fala português e procura serviços no lado brasileiro. Isso acontece com todas as fronteiras que tem o Brasil. Por isso essa política de fronteiras deve ser feita, inclusive na promoção de pequenas e médias empresas. Nisso o trabalho que o Brasil tem feito de apoio técnico com Sebrae e com Senai nestas áreas já é um grande avanço. Trata-se da ocupação do território pelo Estado.

- A senhora enxerga o Brasil como um líder nesse processo de integração?
O Brasil, pelo território que tem, pelo espaço que ocupa no continente, já ocupa uma liderança. Os países, cada vez mais, despertam para a necessidade de manter relações com o Brasil. E não se trata apenas de comércio. Tem a questão da tecnologia, com o intercâmbio de experiências, com políticas brasileiras como a de biocombustíveis. Acho que o Brasil pode desenvolver com outros países da região uma sustentabilidade no desenvolvimento e crescimento. A liderança já é efetiva por que a realidade mostra que o Brasil está em condições de assumir esta posição.

Quais as perspectivas da CAF para os próximos anos no que se refere a integração?
Nos últimos 10 anos, a CAF realizou o processo de inclusão como membros plenos dos países do Mercosul e outros como o Panamá e o Chile. Pouco a pouco, nos consolidamos como uma organização que tem o respeito da comunidade financeira internacional, e isso se deve aos países membros, que ditam as diretrizes. A CAF busca apoiar os esforço de desenvolvimento sustentável dos países da região. No Brasil, há seis, sete anos tínhamos uma carteira de projetos de 200 milhões de dólares e, no ano passado, conseguimos aprovar projetos na ordem de 1,8 bilhão de dólares. Cada vez mais procuramos a integração, o desenvolvimento fronteiriço e o desenvolvimento da infraestutura econômica e social no Brasil. Também temos uma grande preocupação no apoio à pequena e média empresa, que têm um alto percentual de geração de emprego. Na América do Sul, as pequenas e médias empresas ocupam 76% da força laboral e produzem somente 1,32% da riqueza. Quer dizer que ainda tem muito espaço para apoiar e melhorar esta produção com insumos como capital e melhorando o crédito.

 

Moira Paz Etenssoro

Ruben Dosso
Foro Desarrolo Santa Fé - Relações Internacionais

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos 5 anos?
Está avançando mas não no ritmo que esperávamos. Algum avanço há, muito pelo esforço das pessoas e das entidades que estão envolvidas no processo. Mas não devemos esperar nada dos políticos. É preponderante que a iniciativa privada assuma a frente neste processo.

- Quais processos poderão ser implementados para acelerar a integração física, econômica, social, ambiental, educacional e cultural da América do Sul?
Creio que falta planejamento em todos os sentidos. É fundamental que se tenha mais perseverança e mais trabalho. E dar mais espaço para a iniciativa privada atuar.

- Na sua avaliação, a integração física e a integração das políticas públicas estão avançando de forma harmônica no continente sul-americano nos últimos anos?
Falando de todos os países, em geral, não vejo muita harmonia. Vejo o poder público discutindo estas questões relativas a integração, mas nada avança além dos discursos. O avanço é muito pequeno.

 

Ruben Dosso

Kleber Farias Pinto
Clube de Engenharia de Brasilia / CRIAS

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos 5 anos?
Acho que poderia estar melhor porque a América do Sul nunca conseguiu ter uma unidade, já que os países do continente sempre tiveram projetos muito próprios. Só uma cabeça arejada como a do Joal Teitelbaum, que está conseguindo aos poucos, criar uma unidade de pensamento que é de interesse comum. Este trabalho do CRIAS é louvável, indestrutível, porque não tem outra coisa a não ser dedicação. Seus artífices não têm lucro. É um trabalho patriótico, muito próprio de um gaúcho.

- Quais processos poderão ser implementados para acelerar a integração física, econômica, social, ambiental, educacional e cultural da América do Sul?
É preciso insistir que nós estamos no rumo certo. O senhor Joal tem a mentalidade perfeita. Já criou a estrutura necessária. É preciso só que os demais países que estão envolvidos nesta tentativa de união percebam que não existe outra oportunidade de se fazer um pensamento comum a não ser de uma forma democrática, espontânea como a que se está tentando. Esse é um trabalho indispensável e histórico.

- Na sua avaliação, a integração física e a integração das políticas públicas estão avançando de forma harmônica no continente sul-americano nos últimos anos?
Acho que em matéria de política, somente em política econômica. Pois se falarmos em política partidária aí não teremos saída. O Joal está muito bem situado querendo ajustar os interesses das políticas econômicas, porque a coisa que mais importa para os habitantes da América do Sul, a parte que todos sentem mais é o bolso. Quando se fala em oportunidades financeiras e econômicas, todos ficam sensíveis. Por aí ele está certo e vai atingir seus objetivos.

 

Kleber Farias Pinto

Hugo Flores
Ministro-Conselheiro da Embaixada do Peru

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos 5 anos?
Acho que agora não é o melhor momento para a integração. Pois a experiência que temos, os países que estão com projeto integracionistas não estão com os mesmos objetivos políticos e sociais. Há países que estão fazendo a nacionalização das empresas e serviços públicos e outros países, como o meu, estão no processo de privatização. Isso também acontece com a Colômbia. Creio que agora existe a necessidade de integrarmos nossos esforços em uma integração possível e viável. Qual é esta integração? É aquela baseada em infra-estrutura. Toda a iniciativa da IIRSA, por exemplo, com a qual nenhum governo tem qualquer tipo de problema. Creio que esta é a integração possível agora. E também é o momento de conservar o que já temos feito, sem cair na tentação de revisarmos todas as coisas.

- O senhor vislumbra possibilidade que ocorra no continente uma unificação destes objetivos políticos e sociais para que a integração avance?
Com certeza. Isso são períodos históricos que tem acontecido sempre. Algumas décadas atrás, os governos eram militares, depois todos entramos juntos na democracia. Agora, um grupo de países está apostando num projeto novo e outro grupo está apostando em um modelo econômico diferente. Trata-se de um momento de contradições, que,com certeza vai passar.

Quais processos poderão ser implementados para acelerar a integração física, econômica, social, ambiental, educacional e cultural da América do Sul?
Os próximos passos seriam conseguir o financiamento para concretizar estes projetos de infra-estrutura traçados pela IIRSA. Isso seria uma coisa muito importante agora. Depois, temos outras ações simples mas importantes para a integração. Um exemplo é a criação da escola brasileira no Peru, que vai ser muito importante. A integração não é apenas uma questão econômica, mas também cultural. Se os parceiros não se conhecem, não funciona.

 

Hugo Flores

Hugo Sternick
Coordenador-Geral de Desenvolvimento de Projetos - Dnit

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos 5 anos?
Avalio que a integração vem em uma velocidade muito rápida. Porque havia vários processos que estavam atrasados. Ligações que não tínhamos com a Guiana, com a Bolívia, com o Peru, com a Guiana Francesa, com a Venezuela. Estamos ampliando as ligações com a Argentina e com o Uruguai num ritmo muito veloz. E também com o Paraguai, através da segunda ponte. Então avalio que, com o PAC, estas ligações vieram a se agilizar. O PAC foi um elemento de fomento. Estas obras não teriam recursos com o orçamento do tesouro normal. Foi através do superávit primário que a gente teve recursos para tirar estas obras do papel. Se não fosse o PAC elas simplesmente não existiriam.

- Quais processos poderão ser implementados para acelerar a integração física, econômica, social, ambiental, educacional e cultural da América do Sul?
Os próximos passos seriam o fomento de outros modais que não o rodoviário. Seriam tanto o transporte por hidrovias e construção de eclusas, e também melhorar a matriz no que se refere ao transporte ferroviário. Acho que devemos focar nisso senão vamos perder uma grande oportunidade. Esta inversão da matriz de transporte requer muito mais recursos e mais prazo, mas temos que pensar em concretizá-la.

- Na sua avaliação, a integração física e a integração das políticas públicas estão avançando de forma harmônica no continente sul-americano nos últimos anos?
Também neste ponto há avanços. Como técnico demandado para executar projetos, avalio que foros como este congresso são fundamentais para definir prioridades no que se refere à integração. Estas demandas não seriam consideradas prioritárias e estas obras físicas talvez não existissem se isso não estivesse ocorrendo.

 

Hugo Sternick

José Alberto Pereira Ribeiro
Presidente da Associação Nacional das Empresas de Obras Rodoviárias

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos 5 anos?
Dentro da complexidade que é executar um planejamento de integração envolvendo tantos players, nos parece que as coisas estão acontecendo. Poderia se ter uma velocidade maior. Mas o que ressalto é que o que está acontecendo hoje é fruto de um trabalho como este do CRIAS, que consegue reunir representantes dos países, dos governos, dos órgãos diplomáticos, sociedade civil e agências de fomento. Não existe outro fórum neste sentido. Vejo que o sucesso do CRIAS reside no fato de não ser algo emblemático, não ter um rótulo ou um dono. Depende apenas do idealismo do Joal Teitelbaum. Alguns podem achar que não tem nada acontecendo, mas a gente que trabalha na parte de execução, com obras, vê que as coisas estão acontecendo. É preciso dar um desconto pois é muito mais difícil fazer este tipo de empreendimento envolvendo uma infinidade de políticas, legislações e regras de vários países.

- Quais processos poderão ser implementados para acelerar a integração física, econômica, social, ambiental, educacional e cultural da América do Sul?
O próprio tema deste sétimo congresso é a visão de que se tem que sair deste trabalho de mapeamento e aproveitar este conjunto de lideranças da sociedade e ajudar na gestão. Não adianta fazer este exercício daqui e isso cair na burocracia do IIRSA ou dos governos. Realmente queremos fazer esta discussão, que pode parecer muito pretensiosa, mas com a visão de se discutirmos aonde se quer chegar, pode-se avançar. Parece muito claro que é muito mais fácil de avançar trabalhando em cima das concordâncias do que das discordâncias. E o momento é muito importante. Em todo o mundo, todos estão voltados para seus problemas, buscando aliviar-se dos efeitos da crise mundial. Estamos vendo que, mais do que as obras, não se pode deixar de pensar na questão da afinidade entre as nações.

- Na sua avaliação, a integração física e a integração das políticas públicas estão avançando de forma harmônica no continente sul-americano nos últimos anos?
Acho que estamos sendo pioneiros aqui no CRIAS em discutir este tema. Esta integração é necessária, e é provado que tem que ser feita. É preciso sair daqui do congresso do CRIAS com idéias e fórum definido para onde isso vá ser encaminhado. Temos que sair daqui com propostas para alavancar a discussão sobre desenvolvimento e a integração. É importante definirmos uma reformulação de como turbinar nossa atuação.

 

José Alberto Pereira Ribeiro

Inguelore Scheunemann
Secretaria-Geral e Assessora do Programa Iberoamericano de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos 5 anos?
Creio que o processo está muito lento. Nos últimos meses, muito em virtude da crise internacional, mas não apenas por isso. Temos diferenças culturais entre os países da América do Sul que não foram solucionadas para o processo de integração, além das instabilidades políticas, que diferem em cada país. Creio que devemos realinhar o rumo para não perdemos o momento de realizar, de forma efetiva, a integração.

- Quais processos poderão ser implementados para acelerar a integração física, econômica, social, ambiental, educacional e cultural da América do Sul?
O que realmente faz a integração é a aproximação das pessoas, seja pessoas físicas, seja como grupo, dedicado a determinado tema. E, principalmente, pela sociedade civil. Os governos apenas facilitam. Eu daria como exemplo o Programa Ibero americano de Ciência e Tecnologia pelo Desenvolvimento, que tem 25 anos e conta com a participação de 19 países ibero americanos, 10 mil cientistas envolvidos em 132 redes temáticas, onde os países que estão mais desenvolvidos cooperam com os que estão menos desenvolvidos. Os resultados são muito bons.

- Na sua avaliação, a integração física e a integração das políticas públicas estão avançando de forma harmônica no continente sul-americano nos últimos anos?
É uma complementação importante. Ainda mais nestes últimos tempos em que não é mais possível dissociar o fator econômico do social e ambiental. Então é um avanço trazer para dentro dos congressos essas outras vertentes. Acho que o CRIAS faz um papel muito importante na integração física, mas creio que a agregação destes outros fatores vai proporcionar com que o CRIAS integre outras áreas e consequentemente, outras pessoas, tendo uma visão mais ampla do que é a integração.

- A senhora acha que o CRIAS consegue se posicionar e ter voz na defesa da causa da integração do continente?
O CRIAS é a única iniciativa da América do Sul voltada para a integração por processo físico, dos acessos físicos. Então é um programa que tem um significado muito grande. E justamente hoje há mais abertura para a questão da integração em todos os fóruns. E esta bagagem acumulada em 13 anos do CRIAS vai ser muito importante para que outros fóruns assimilem estes estudos, estas análises.

 

Inguelore Scheunemann

Dorothéa Werneck
Ex-ministra da Indústria e Comércio

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos 5 anos?
Certamente o ritmo da integração já foi maior. Eu diria que no presente momento está bastante parado. E diria ainda que apresenta alguns retrocessos. Se nós considerarmos o Mercosul como parte do processo de integração da América do Sul, que é uma sub-região desta região maior, veremos que hoje tem muito mais problemas do que soluções. Inclusive há um repensar de alguns países-membros, para ser mais explicito o Paraguai e o Uruguai, se vale a pena estar no MERCOSUL. E mais do que isso, a própria relação Brasil-Argentina, que está mais conturbada do que foi algum tempo atrás. Então eu separaria este caminho que foi trilhado começando pelo MERCOSUL e pensaria na possibilidade de fazer uma integração maior, como por exemplo no caso desta proposta do CRIAS, que seja através das rotas de integração, com eixos de integração. Ai você tem uma coisa muito mais concreta, que são os canais de comunicação, sejam eles rodovias, hidrovias, ferrovias, seja a comunicação como foi discutida aqui. Isto é algo mais incomum, de interesse de todo o mundo e que tem um interesse muito grande da empresa privada, de modo que o investimento vai ser realizado pela empresa privada, a execução também fica a cargo do setor privado. Ainda há muito a se discutir no que se refere ao modelo para financiar isso. Na minha opinião, tem que ser algo na linha das Parcerias Público-Privadas, pois não há recursos suficientes para os setores públicos dos países fazerem isso. Mas que é uma concretização viável de forma mais interessante ao setor privado. Não descartaria que já existe algo na linha de integração comercial, que pode ser melhorado. Por exemplo: há uma regra no Mercosul que todas as vantagens de acordos internacionais que qualquer país-membro recebe tem que ser estendida aos demais. Isso inviabiliza os acordos bilaterais, o que é um absurdo, porque o mundo, cada vez mais, está caminhando para a prática dos acordos bilaterais. Eu teria dois argumentos para contrapor isso: o primeiro é o que fez o Chile, que tem acordo de comércio com diversos países. Em segundo lugar, a dificuldade é muito maior quando você tenta negociar o MERCOSUL com outros mercados. E a regra impossibilita os países-membros de fazer individualmente. E há outras questões que deveriam ter avançado. O Chile não entra no MERCOSUL por questões tarifárias, que poderiam ser contornadas com menos exigências por parte do bloco que pode chegar a ter a América do Sul inteira

Como a senhora vê a relação entre o setor público e a iniciativa privada no processo de integração e desenvolvimento?
Nisso, vou ser bem radical: o que não precisar do setor público, deixa que o setor privado faça. As coisas que estão acontecendo e acontecem em qualquer parte do mundo é que se o setor privado tem interesse e é um bom negócio, deixa que o setor vá e faça. Onde entra a necessidade do setor público? Falando em obras, como uma ferrovia ou uma hidrovia, que necessita do envolvimento do setor público para esse processo de negociação. Você tem que ter um acordo entre países, entre governos para que isso saia. Tem um segundo momento que o governo pode entrar, nas obras de interesse público, para definir o formato, se será concessão, inteiramente privatizada, etc. O governo precisa participar para definir o formato. E outro momento que o governo deve entrar é no financiamento, na definição de como o setor privado vai recuperar o investimento.

O que falta para que o processo de integração deslanche na América do Sul?
É importante ressaltar que estamos vivendo um momento na América do Sul em que todos os países estão olhando para o próprio umbigo, por diferentes motivos. Ou por razões econômicas, como no caso do Brasil, que está priorizando desenvolver o mercado interno, ou por questões políticas, como na Bolívia, ou por razões de segurança, como na Colômbia, em que a prioridade é acabar com o narcotráfico. Neste momento, ninguém está priorizando a integração continental. Mas tenho o defeito de ser otimista. Creio que o momento de olhar para a integração vai chegar.

 

Dorothéa Werneck

Vladimir Souza
Departamento de Comércio Exterior do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos 5 anos?
 Acho que já foi pior, está andando, ainda temos muito para avançar, mas as iniciativas que já foram criadas, como a UNASUL, o próprio IIRSA e o CRIAS já demonstram que existe uma preocupação de integrar a América do Sul. Várias entidades estão buscando o ‘como fazer’. Já há um interesse, e essa interação é benéfica, pois pode resultar em políticas que podem integrar efetivamente o continente.

- Quais processos poderão ser implementados para acelerar a integração física, econômica, social, ambiental, educacional e cultural da América do Sul?
Já existem alguns trabalhos, alguns estudos e, na minha avaliação o principal é que haja a convergência dos interesses de cada país. É preciso ver o que cada um efetivamente precisa e iniciar a execução destes esforços. Já foi falado no congresso que existem muitos projetos. Falta efetivamente começar a construir rodovias, melhorar aeroportos e o transporte fluvial. O importante é começar. É preciso priorizar alguns projetos, definir um foco. Talvez a visão que temos de determinado país não seja o foco principal dele. Acaba que não se concretiza nada. Você tenta impor determinado caminho para ele e não funciona. Também é preciso rever a questão dos mega-projetos, que precisam da concordância de vários países, o que dificulta a execução. Creio que deve-se começar por pequenos projetos, para dar o start nos projetos e já estar integrando.

- Na sua avaliação, a integração física e a integração das políticas públicas estão avançando de forma harmônica no continente sul-americano nos últimos anos?
Acho que a integração é mais do que a questão física, do que construir rodovias. Vai além disso. Ações como, nas cidades fronteiriças, desenvolver um mesmo sistema de saneamento básico, parecem lógicas, mas não era feito e agora está se pensando nisso. A integração física tem carências de execução, mas também há carência de ações que só agora começam a ser pensadas, como o serviço de roaming e a questão da educação, por exemplo.

- Considerando a questão do fomento a integração, de que forma o BNDES pode contribuir com este processo?
O BNDES vem colaborando, já há mais de dez anos, financiando projetos de infraestrutura na América do Sul por meio de projetos de financiamento da exportação de bens e serviços. Já foi o indutor de projetos de energia e infraestrutura viária em países da América do Sul, como o metrô de Caracas, o metrô do Chile. Uma coisa nova que surgiu agora é a área de estudos e projetos, que financia este tipo de trabalho. Entre os projetos em análise estão o trem de alta velocidade, o corredor ferroviário bioceânico ligando Santos a Antofagasta, no Chile, que já está sendo financiado pelo banco. Também temos uma carteira de projetos tanto de infraestrutura quanto de integração.

 

Vladimir Souza

Cláudio Lyra
Embaixador chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores no RS

- Na sua avaliação, a integração da América do Sul está avançando de forma satisfatória nos últimos anos?
Acho que a integração tem avançado em um ritmo possível. Não é uma questão de gostar ou não gostar. Acho que o destino chama para isso. Para estarmos entrelaçados, unidos pela América do Sul. O que é ilusório é comparar com a esquemática de integração da Europa, que nasceu em outro contexto, com outras condicionantes. Certamente a América do Sul não pode se pautar por estes parâmetros. Vamos completar 200 anos de independência. A integração vai no ritmo possível, respeitando as características de cada país. Um exercício como Congresso do CRIAS é muito proveitoso para a troca de experiências. A integração vai andar no ritmo que seja do interesse dos governos. Temos que ser realistas neste ponto. Se verificarmos as regiões em desenvolvimento, não há nenhum processo mais avançado que o da América do Sul. Não há na Ásia, nem na África, salvo algumas experiências isoladas. Estamos tentando avançar naquilo que temos em comum, mas temos que considerar que temos diferenças que precisam ser conhecidas e superadas.

- Quais processos poderão ser implementados para acelerar a integração física, econômica, social, ambiental, educacional e cultural da América do Sul?
O tema que estamos discutindo hoje é fundamental. Sem uma circulação maior de pessoas e mercadorias a integração não funciona. Precisamos nos conhecer melhor, até para não perder muito tempo com projetos inviáveis que não atendem aos interesses destes países. Senão fica-se num diálogo de surdos que poderia ajustar-se se tivéssemos de antemão um conhecimento melhor das realidades com que estamos lidando.

- Na sua avaliação, a integração física e a integração das políticas públicas estão avançando de forma harmônica no continente sul-americano nos últimos anos?
Acredito que existam, aqui e ali, políticas públicas visando à integração. Mas acredito que ainda falta uma visão mais abrangente de qual é o nosso propósito com a integração. Queremos que os povos sul-americanos estejam mais unidos em suas articulações e as políticas públicas servem para dar os moldes para que o setor privado possa atuar. Este que é o setor capaz de fortalecer esta integração. Mas estes moldes devem ser confiáveis. Não podem ser diretrizes que amanhã serão revogadas, como ocorre em outros parâmetros. Creio que isso é fundamental. E tudo parte de um conhecimento maior. Não podemos desperdiçar energia em iniciativas inviáveis.

-Qual o papel da diplomacia neste processo de integração? O que o Ministério de Relações Exteriores tem feito para colaborar com este processo?
Muito antes de se falar em processo de integração o Ministério de Relações Exteriores já se preocupava em haver um maior conhecimento de nossos parceiros sul-americanos e latino americanos em geral. Já nos anos 40, havia uma série de ações como o intercâmbio estudantil que ampliou a base de conhecimento sobre outros países.

 

Cláudio Lyra