O vôo que entrou para a história

No dia 23 de outubro o brasileiro Alberto Santos Dumont voou em Paris, em artefato mecânico, tornando-se o Pai da Aviação.


Alberto Santos Dumont não entrou para a história somente como o pai da aviação e como herói nacional. Mas também como um exemplo de perseverança, por não desistir de seus ideais e por acreditar que o ser humano sempre pode voar mais alto, seja através de uma máquina mais pesada que o ar, ou através de seus sonhos.

Foi na tarde do dia 23 de outubro de 1906, que tudo aconteceu. O jovem Alberto Santos Dumont tentaria repetir o mesmo feito satisfatório do dia 13 de setembro, quando conseguiu voar pelos céus de Paris com um aparelho mais pesado que o ar. Porém, naquele dia, ninguém havia feito o registro oficial do vôo. Os trens de pouso e a hélice, que quebraram na primeira aterrissagem, foram restaurados. O motor foi substituído por um com 50 cavalos de potência, fazendo a hélice girar a 1500 rotações por minuto. A aeronave perdeu 40 quilos, a fim de ganhar mais rendimento na decolagem.

A multidão havia se aglomerando no campo de Bagatelle, em Paris. O presidente do Aeroclube da França, Ernest Archdeacon, havia oferecido o prêmio de três mil francos, assim como a Taça Archdeacon, para aquele que percorresse voando à distância de 25 metros em um veículo com propulsão própria. Naquela época os homens já subiam aos céus através de grandes balões que estavam subordinados a seguir a direção dos ventos. O próprio Dumont iniciou seus estudos aerodinâmicos em um deles. Como os preços dos passeios nesses veículos eram altos, ele passou a fabricá-los. O primeiro, em formato de dirigível, foi o Brasil 1, que surpreendeu os franceses pelo tamanho reduzido em relação aos demais. Dumont havia feito 13 balões. O 14º foi feito para erguer até as nuvens uma estrutura feita de bambu e seda japonesa com cerca de 10 metros de comprimento, chamada por ele de 14 BIS. Era a mesma estrutura que chegara ao campo de vôo, rebocada por um automóvel Peugeot 36 – símbolo de modernidade da época por ser o primeiro carro a ter motor na parte frontal, capô e volante.

O inventor brasileiro, com 33 anos na época, assumia também a condição de piloto. Segurou-se nas hastes da asa e, com um pulo, postou-se no acento. As pessoas silenciaram. Ia começar a experiência. Dumont acenou para a multidão, pedindo que recuem. O 14 BIS precisava de espaço para decolar.

A hélice começou a girar. O ronco do motor fazia um barulho imenso. O veículo começou a se movimentar, deslizando pelo campo. Quando menos se espera, as rodas deixaram de tocar o chão. Os espectadores olhavam maravilhados para o homem que conseguia voar acima de suas cabeças. O 14 BIS atingiu três metros de altura, percorrendo uma distância de 60 metros. A aeronave aterrissou em meio aos gritos de “viva”, “incrível” e “inacreditável”. No dia seguinte, os jornais de todo o mundo traziam em suas capas o relato da façanha do engenhoso brasileiro que nasceu na cidade de Palmira, em Minas Gerais, chamado Alberto Santos Dumont.

O Coronel-Aviador do V Comando Aéreo Regional, Romeu Bagnato Junior, afirma que este dia pode ser considerado um marco na história da humanidade. “Muitos tentaram vencer a barreira de voar sendo mais pesado que o ar. E Santos Dumont não só venceu essa barreira, como conquistou outras marcas. Por exemplo, conseguiu fazer o menor balão do mundo, em 1898. Ele resolveu o problema da dirigibilidade, de conseguir controlar um balão que era dirigível número 6, com o qual conquistou o Prêmio Deutch Meurthe, em 19 de outubro de 1901. E também foi o primeiro a percorrer o trajeto de 11 km, contornando a Torre Eifel e retornando ao ponto de partida em 30 minutos”, destaca.

Entretanto, até hoje, alguns atribuem a conquista dos céus aos americanos Orville e Wilbur Wright, que teriam, 3 anos antes de Dumont, voado com uma aeronave. O Coronel Bagnato explica que Santos Dumont foi o primeiro, por cumprir com os requisitos da época, que exigiam que a máquina, mais pesada que o ar, teria que decolar, voar e aterrissar sem ajuda externa. “Os Irmãos Wright não cumpriram com esses requisitos. E, além disso, não houve uma comissão julgadora que confirmasse o feito. Não houve registros oficiais. Já o vôo de Santos Dumont foi presenciado e registrado por uma comissão oficial do Aeroclube da França”.

O avião criado nos Estados Unidos voava mediante o auxílio de uma catapulta, que arremessava a máquina no ar, enquanto que o 14 BIS utilizava um motor de 50 HP para decolar. Atualmente, a tecnologia da propulsão permite que aviões comerciais com mais de 250 passageiros atinjam velocidade superior a 800 km/h, alcançando cerca de 12 mil metros de altitude.

Para o Coronel-Aviador, a aviação é um ramo extremamente moderno, e que não pára de evoluir. O sonho do ser humano em conquistar os céus já chegou muito além das nuvens. “Na área da aviação, o homem traçou diversos objetivos. Um deles é a conquista do espaço. Neste ano tivemos um grande exemplo, que foi a viagem do primeiro astronauta brasileiro Marcos Pontes. E hoje a humanidade não tem mais fronteiras”, explica.

“Santos Dumont era um ser iluminado, até mesmo pelas condições que a família tinha. O pai dele era engenheiro. Quando a família mudou-se para a região de Ribeirão Preto, ele passou a plantar café. Tornou-se praticamente o maior produtor de café do Brasil na época. Dentro da fazenda, havia até mesmo uma ferrovia própria. Santos Dumont, desde pequeno, tinha afinidade para lidar com as máquinas. Inclusive pilotar as locomotivas junto com os outros empregados. Ele estava sempre envolvido com os equipamentos mecânicos. Depois ele teve a oportunidade de viajar para França. Quando chegou a Paris, se dedicou aos estudos da aeronáutica, tendo aulas de mecânica e de engenharia focadas na aviação”, conta o Coronel Bagnato.

A vida do pai da aviação terminou de maneira trágica. Dumont havia ficado bastante abatido quando viu sua invenção utilizada para dizimar vidas na Primeira Guerra Mundial. Ficou internado em clínicas hospitalares na França, antes de se mudar para o Guarujá, onde ficou sobre os cuidados de um sobrinho. Com a Revolução Constitucional de 1932, o Estado de São Paulo declarou guerra contra o governo de Getúlio Vargas. No dia 23 de julho daquele ano, aviões de combate sobrevoaram os céus paulistanos, promovendo um ataque à base aérea do Campo de Marte. Nesse mesmo dia, o pai da aviação, com 59 anos de idade, cometeu suicídio. Alguns historiadores acreditam que a visão dos aviões partindo para o bombardeio, foi a gota d'água para o brasileiro que queria sua maior invenção usada para promover a paz e para a união das nações.